Fotógrafo ativista fala sobre como é viver com HIV



Sem culpas ou dramas, Daniel Fernandes fala sobre a condição do soropositivo

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otógrafo, gay, pessoa vivendo com HIV e ativista, Mário Daniel Fernandes Bezerra, de 32 anos, resolveu, em 01 de Agosto de 2016, ligar a câmera e falar, no Youtube, sobre como vive um soropositivo. Hoje, mais de um ano depois do primeiro vídeo, ele é convidado a palestrar em vários lugares do país para tentar diminuir a desinformação das pessoas sobre o assunto. 
Ativista criou canal no YouTube para ajudar a acabar com preconceito

Desde que começou a ser espalhado pelo mundo, o HIV (em inglês, Human Immunodeficiency Virus) tem sido alvo de inúmeros mitos. São fabulações que contribuem para o preconceito contínuo contra pessoas infectadas. Mesmo com o avanço no tratamento da Aids (doença ocasionada pelo estágio mais avançado do vírus), muitas pessoas ainda desconhecem que o HIV não sobrevive fora do corpo e que não é possível contraí-lo apenas por estar próximo de quem o porta.
De acordo com o site aids.com.br, não se pega HIV na piscina, por picadas de mosquitos ou por meio de tatuagens e piercings: “Há apenas quatro secreções que têm o vírus HIV em concentração alta o suficiente  para infectar outra pessoa: o sangue, o sêmen, fluidos vaginais, e leite materno.” E essa transmissão só acontece “no caso de uma mucosa ou um tecido danificado de uma pessoa entrar em contato com um desses fluidos, ou se eles forem injetados diretamente na corrente sanguínea.”
Apesar de todas as fobias aparentes, o Portal da Saúde, site oficial do Ministério da Saúde, do Governo Federal, publicou, no início do ano passado, que o Brasil estaria batendo o recorde de pessoas em tratamento contra o HIV e a Aids. São  81 mil brasileiros infectados, com aumento de 13%, de 2014 para 2015, tomando antirretrovirais (remédio usado para o tratamento do vírus). Um possível releitura desta informação é a de que o preconceito existe, mas as pessoas pouco estão fazendo para se prevenir.
Questionado sobre que tipos de sintomas o levaram a fazer o teste do HIV, o fotógrafo Mário Daniel Fernandes afirma só ter feito o exame porque seu namorado à época havia contraído uma IST (Infecção Sexualmente Transmissível), depois de ter “pulado a cerca”. Foi quando decidiram fazer exames completos: “O meu [teste] deu positivo”, ele disse. O do namorado deu negativo.
Daniel diz, ainda, não se considerar culpado por nada, nem culpar ninguém. Admite, no entanto, que algumas pessoas não sabem lidar com essa situação e acabam por traçar um limite na relação com ele: “Meu primeiro 'fora' veio anos após a descoberta [do vírus]. Estava conhecendo um rapaz que fazia doutorado. Quando falei que era soropositivo, ele recuou, pediu desculpas e disse que não sabia lidar com a situação.” A partir desse momento, o ativista pensou em criar algo que informasse aos cidadãos sobre como é viver com o HIV: “Meses depois, o Prosa Positiva, meu canal no YouTube, foi ao ar.”
Ele ressalta que viver com o vírus incomoda, mas não o faz inferior a ninguém: “A diferença entre um soropositivo e um soronegativo (pessoa não contaminada), consiste no uso diário da medicação, que, aliás, é um fator importante para a qualidade e expectativa de vida do primeiro grupo”. Cuidados com alimentação, sono, stress e exercícios físicos também não devem ser deixados de lado. “Se a pessoa deixa de tomar o coquetel, o vírus ganha resistência em relação ao esquema do seu tratamento. Seria necessário, então, trocar a medicação”, afirma. 

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O site aids.gov.br avalia que, no Brasil, desde 1980 (início da epidemia) até 2012, constatou-se 656.701 casos de Aids. Perguntado sobre por que as pessoas deixam a doença se manifestar, Daniel responde que alguns indivíduos simplesmente não aceitam a sorologia, por medo do preconceito, tanto em casa quanto na rua, e por causa dos efeitos colaterais fortes que o antirretroviral produz. “Além disso, o uso contínuo de drogas fortes também acaba facilitando a manifestação da doença”, completa.
Nem tudo é má notícia, no entanto. No início de 2016, o Portal da Saúde publicou que 91% dos brasileiros adultos vivendo com HIV e Aids, em tratamento há pelo menos 6 meses, já apresentam carga viral indetectável no organismo. Signifca que os antirretrovirais estão fazendo efeito e essas pessoas não mais transmitem o vírus para outras. 
"O vírus fica indetectável quando a carga viral está com uma quantidade muito reduzida, ficando abaixo de 40 cópias por mililitro. Assim, as chances de transmissão do vírus durante o ato sexual ou contato com o sangue cai para abaixo de 4%", diz Daniel, que completa: “mas isso não quer dizer que o uso da camisinha deva ser abolido, principalmente quando não se tem parceiro fixo. O antirretroviral é valido apenas para o vírus HIV, não para as demais IST’s”.
Para Daniel, ainda, o uso do preservativo é importante mesmo para pessoas indetectáveis, principalmente quando não há parceiro fixo e quando não se conhece o histórico da pessoa com quem está tendo relações sexuais. Para deixar de usar a camisinha, é importante haver o consenso e a consciência de todos os riscos a que o casal está submetido, além de procurar conselhos com médicos especialistas.
Hoje em dia, soropositivos já podem ter filhos biológicos sem precisar fazer inseminação artificial. Claro que, durante a gestação, a mãe não pode deixar de ter acompanhamento médico. A criança, então, nasce sem o vírus, independente se ambos os pais ou um deles é soropositivo. Neste caso, a amamentação materna é inviável e, durante os seis primeiros meses, a família tem o apoio do governo com leite apropriado para recém-nascidos.
Ainda segundo o site aids.gov.br, no Brasil, entre os homens maiores de 13 anos, 43,5% dos casos de transmissão do HIV se deram por relações heterossexuais; 24,5% por relações homossexuais e 7,7% por bissexuais. Mesmo assim, existe um entendimento de que a epidemia é concentrada em prostitutas, homossexuais e usuários de drogas, o que parece contraditório, principalmente levando em consideração que durante os testes, os heterossexuais nunca estão nas pesquisas de vulnerabilidade. Enquanto isso, gays, HSH (homens que fazem sexo com homens), profissionais do sexo e usuários de drogas são marginalizados desde sempre.
Apesar de todos os avanços no tratamento do HIV, ainda não foi descoberta a cura para o vírus. Sobre isso, Daniel conclui: “Se a sífilis, que é milenar, e para a qual existe todo um tratamento que elimina a bactéria do paciente, ainda está nos assolando, imagina o HIV. Acredito em uma possível cura, mas prefiro não viver em função de que ela virá um dia.”

Veja no vídeo abaixo um bate-papo descontraído sobre Aids e HIV, com Daniel Fernandes, tendo como base a História em Quadrinho Pílulas Azuis


(Esta reportagem é um trabalho realizado para obtenção de nota no curso de Jornalismo)

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